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Volta às aulas por recomendação médica junho 9, 2009

Posted by guilhermegiorgio in Educação, Saúde, Tarumã.
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Juraci Domingues voltou a estudar aos 73 anos para combater o avanço do Mal de Alzheimer

Juraci Domingues voltou a estudar aos 73 anos para combater o avanço do Mal de Alzheimer

Ainda não são 19 horas quando a dona de casa Juraci Domingues chega ao número 668 da rua Konrad Adenauer, onde funciona o Colégio Estadual Professora Maria Balbina Costa Dias. Aos 74 anos, Dona Jô, como é conhecida por familiares e amigos, voltou a estudar por recomendação médica. Há pouco mais de um ano ela foi diagnosticada como portadora do Mal de Alzheimer, doença neurológica incurável que degenera o cérebro e causa, entre outros sintomas, demência e perda de memória. “Remédio, mesmo, o doutor disse que não tem. Recomendou que eu exercitasse o cérebro para que a doença não tomasse conta”, explica. 

EJA

Ela participa, desde então, do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), um dos segmentos da educação básica que funciona através de repasses do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). O EJA é destinado ao atendimento de alunos que não tiveram, na idade própria, acesso ou continuidade de estudo no ensino fundamental e médio. A denominação “educação de jovens e adultos” substitui o termo “ensino supletivo” da Lei n.º 5.692/71 e atualmente compreende o processo de alfabetização e cursos ou exames supletivos nas etapas fundamental e média.

De segunda a sexta-feira,  por volta das 18h, Dona Jô pega  o ônibus da linha Sacre Coeur (“ Sagrado coração”, diz, gastando o francês),  que pega em frente de casa, no Bairro Alto, e a deixa no colégio Maria Balbina. Lá, das 19h às 22h, tem aulas de matemática, geografia e português, entre outras da grade curricular definida pela Secretaria de Educação do Estado. “Gosto mais das aulas de geografia. Através delas eu viajo e conheço lugares aos quais nunca fui. Inclusive aqui mesmo em Curitiba”, afirma, mostrando disposição e curiosidade  que faltam a muitos jovens estudantes.

Esquecimentos e confusões

Os sintomas do Mal de Alzheimer se manifestam gradativamente. No estágio inicial, caso de Dona Jô, se traduzem em esquecimentos e pequenas confusões, principalmente na hora de se dirigir a um dos 14 netos. “Quando vou chamar algum deles, às vezes esqueço o nome. Para eles é motivo de riso, porque sabem que é um problema que a avó deles tem na cabeça”, conta, sempre com muito bom humor.

Os resultados do empenho no tratamento da doença Dona Jô diz sentir a cada dia que passa. “Voltar a estudar foi uma coisa muito boa na minha vida. Além de exercitar a mente, como recomendou o médico, passo meu tempo fazendo as tarefas, lembrando  de como foram as aulas e dos amigos que fiz lá dentro. Tudo isso é muito importante no tratamento da minha doença”, diz. Além do estudo, Dona Jô também se dedica aos passatempos que exigem raciocínio, como palavras cruzadas. “Meus filhos me compram esses livros e eu tenho que tomar cuidado para não extrapolar. Tenho vontade de fazer tudo de uma vez”, explica.

Sonho antigo

Natural de União da Vitória, sul do estado do Paraná, Juraci  parou de estudar em 1958, aos 24 anos, quando a mãe morreu em decorrência de complicações no parto. “Na minha cidade estudei até o que, na época, era chamado de ‘normal regional’ (8ª série). Quando minha mãe faleceu, tive de parar para cuidar das minhas irmãs mais novas”, explica. Os 41 anos passados longe dos bancos escolares fizeram diferença na hora de definir a série em que ela poderia voltar a estudar. Apesar de já ter cursado até a 8ª série, Dona Jô qualificou-se para começar  na 3ª. No entanto, mostrando inteligência e dedicação, precisou de apenas 6 meses para para passar à 4ª e mais seis para chegar à 5ª.  “Apenas eu e mais uma aluna conseguimos pular direto para a 5ª série. Os outros, por terem menos condições, não puderam. Mas um dia vão conseguir, se Deus quiser”, afirma.

Apesar de ter voltado a estudar por recomendação médica, Dona Jô não encara o estudo como um tratamento médico, mesmo com os benefícios que as aulas trouxeram à sua saúde. “Sempre gostei muito de estudar. Todos os meus filhos estudaram e hoje acontece o mesmo com os meus netos”. E vai além. “Tenho um sonho. Gostaria de um dia poder assistir uma aula na Universidade Federal do Paraná. Qualquer que fosse a matéria. Gostaria de me sentir uma aluna de verdade, com uniforme, material escolar e tudo mais”, conta.

No Brasil, existem cerca de 15 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Seis por cento delas são portadoras do Mal de Alzheimer.

Guilherme Giorgio

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