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Um olhar atento vigia a madrugada junho 8, 2009

Posted by João Luiz Guarneri in Cotidiano, Ruas, Tarumã, Trabalho.
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dsci00501Lentamente as pessoas vão desaparecendo e o som ambiente se transforma. De uma algazarra de buzinas, apitos, motores de carros e gente conversando, a um silêncio quase absoluto. Assim é a Rua Konrad Adenauer, no Tarumã, após as 23h, quando os portões da faculdade Unibrasil se fecham. Para aqueles que presenciam todo o movimento e ainda têm como obrigação manter o caos sob controle, essa mudança no cenário é até um alívio. Sidnei é uma dessas pessoas. Ele acompanha essa rotina, dia sim, dia não, conforme sua escala de trabalho, na faculdade, que começa às 18h. Como sempre faz, sai de casa uma hora antes, pois os ônibus, no meio do trânsito do fim da tarde, são muito lentos. Sair com antecedência se tornou um hábito para esse jovem morador do bairro Pinheirinho. 

Para que o tempo passe mais rápido, um pequeno aparelho de MP3, com fones de ouvido, o distrai durante a viagem de mais ou menos 45 minutos. O repertório é variado, do sertanejo ao evengélico. Viajar sentado é um luxo nem sempre possível. Nas mãos, apenas uma bolsa, daquelas com alça à tira-colo, onde carrega sua camisa do uniforme que deverá vestir enquanto estiver trabalhando e uma marmita com a comida preparada por sua mãe. Carrega também uma pequena garrafa térmica de café, que será compartilhado com os colegas com quem enfrentará a noite toda até o amanhecer. Quando chega à faculdade, ele deixa sua bolsa no mesmo cantinho de sempre e dá início à sua rotina de procedimentos.

Sidnei sabe que em seu trabalho a rotina previne erros. Ao mesmo tempo, fica dividido entre a monotonia e a garantia de um serviço bem feito. Primeiro cumprimenta seus colegas, que acabam de encerrar seus turnos e os que, como ele, irão começar a jornada. O procedimento inicial é passar o olho rapidamente pelo livro de relatórios, para saber se há alguma recomendação especial da chefia para o novo turno. Novidade é coisa rara, desabafa Sidnei. Nem sempre a novidade é boa coisa. Como quando ocorreu um incêndio, há poucos dias, nas instalações do DER encostadas no muro da faculdade. Sidnei e seus colegas foram instruídos a monitorar o local durante toda a noite, pois havia a possibilidade de um reinício de incêndio. O jovem cumpre religiosamente o que lhe é recomendado. Segue sua rotina inalterável e procura fazer de seu trabalho uma atividade prazerosa.

Quando a última pessoa deixa o campus, a Rua Konrad Adenauer fica praticamente deserta. Mais uma vez ele se divide. Desta vez, os sentimentos são de alívio, pela confusão haver terminado, e certa melancolia, pois Sidnei  gosta de pessoas.  Gosta de interagir com elas. A partir desse momento, próximo das 23h, sua interação se limita ao seu MP3 e seus colegas, que revezam seus postos em sistema de rodízio. Seu ambiente de trabalho, durante boa parte das sete horas seguintes será a guarita, junto aos portões.

A guarita

É na guarita que ele encontra algum aconchego e conforto que o permitem suportar a solidão da madrugada. Num espaço de oito metros quadrados, Sidnei e seus companheiros mantêm a melhor estrutura possível para todos. São três cadeiras, do tipo de escritório, com rodinhas, “provavelmente recuperadas de algum depósito, devido ao seu péssimo estado”. Um rádio relógio, com vários anos de uso, que ninguém sabe dizer de onde veio. Algumas roupas de frio penduradas atrás da porta e nos encostos das cadeiras, afinal, “em Curitiba nunca se sabe o que o clima nos reserva”. Uma bancada comprida, com um telefone, para ligações internas, exclusivamente. Ainda sobre a bancada, algumas canetas, papéis para rabiscos e anotações, além das caixas onde se guarda as centenas de cartões de estacionamento.

Na prateleira abaixo, ficam o livro de relatórios, algumas chaves, uma prancheta, um jornal que nem sempre é o do dia, e “bugigangas do pessoal”. A garrafa térmica de Sidnei não é a única na guarita. Cada um mantém a sua dentro da própria bolsa. Quando seu café acaba é hora de “atacar” o do outro. “Ninguém se importa”, ele conta, “desde que o último gole de café seja do dono da garrafa”.

A madrugada

Lá pelas 3 horas da madrugada o sono pega. “A noite foi feita pra dormir e o homem quer mudar isso”. Por mais que tente, Sidnei não consegue se acostumar com o trabalho noturno. É melhor fazer uma ronda, dar uma caminhada, circular um pouco. O silêncio é hipnotizador. De vez em quando se ouve, bem ao longe, o relinchar de um dos cavalos do Jóquei Clube e o apito do guarda do outro lado do muro.

Às vezes, durante os finais de semana, no meio da madrugada, alguns motoristas param seus carros no estacionamento externo, ao longo do muro do Jóquei. Uns deitam os bancos e ficam namorando. Outros descem do carro, abrem o porta-malas, ligam o som em alto volume, tomam umas cervejas e fazem uma balada ali mesmo. “Não falamos nada, afinal, o lugar é público. Quem deve se incomodar com isso é a polícia. A gente só fica olhando”.

O sonho

Uma hora antes de encerrar o turno, Sidnei observa as pessoas passarem em frente à guarita. A maioria delas passa por ali diariamente. Tem um carrinheiro, desses catadores de papel, que passa invariavelmente às 5 da manhã com seu carrinho vazio seguido por seus dois fiéis vira-latas, que provavelmente não têm nada melhor a fazer a não ser acompanhá-lo na luta diária. Logo em seguida vem o vigilante do Jóquei Clube, que, como Sidnei, trabalha a noite inteira e, ao final de seu turno, não tem ânimo nem pra cumprimentar os que cruzam seu caminho.

O sol já brilha forte às 6 horas da manhã. É hora de ir para casa. Sidnei gosta da luz do dia e sente que tudo fica mais alegre com a paisagem ensolarada. É uma pena ter de dormir durante boa parte do dia e não poder aproveitar o sol. Esse mesmo sentimento é compartilhado com seus companheiros da madrugada. Todos se reúnem na guarita, alguns minutos antes do horário de saída, para tirarem o uniforme, recolherem seus pertences e assinarem o livro ponto. Nesse mesmo instante chega o pessoal do próximo turno. Sidnei despede-se de todos e caminha sozinho em direção ao ponto de ônibus. Por sorte, a essa hora da manhã, os ônibus estão vazios e a viagem de volta pra casa será mais confortável.

Sidnei agradece a Deus pelo seu trabalho, apesar de desejar algo melhor para si no futuro. Sidnei Santos tem 24 anos, é vigilante noturno na Unibrasil há 2 anos. Apesar do orgulho que sente de sua profissão, espera, em breve, cruzar os portões da faculdade sem o seu uniforme de vigilante e a garrafa de café, mas com muitos livros e uma carteirinha de estudante de direito. É com esse momento em mente que Sidnei faz cada dia valer a pena.

João Luiz Guarneri

Segurança a galope na Konrad Adenauer

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