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Confira entrevista com o jornalista Mauri König novembro 17, 2008

Posted by biancasilva18 in Cidadania, Mídia.
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Em entrevista realizada no dia 25/10/2008, o jornalista Mauri König discute jornalismo comunitário e sua importância para a sociedade. Ele ressalta, de início, questões sobre o sensacionalismo da mídia diante dos casos atuais, a superficialidade das matérias que se preocupam apenas com os assuntos cotidianos sem aprofundá-los, a liberdade do jornalista ao escrever uma matéria. Ao final da entrevista, ressalta como está o espaço das mídias comunitárias atualmente e sua relevância. Mauri dá uma aula e nos traduz a importância de um site jornalístico até o que parece ser um simples jornal de bairro.

 

Zona Leste: Como você vê o jornalismo comunitário? Ele está calcado na questão social ou tende para o sensacionalismo?

Mauri König: Um dos grandes problemas da imprensa é ficar na cobertura superficial dos acontecimentos. É trabalhar só em cima do inusitado, daquilo que choca e chama a atenção, porque sempre terão assuntos que despertam a curiosidade das pessoas. Se hoje acabou o caso do Lindemberg em Santo André, a imprensa amanhã já tem outro caso para explorar o inusitado. Só que ela nunca vai a fundo para discutir; a imprensa não costuma buscar as causas do problema. São raros os jornalistas que se preocupam em tentar explicar as causas dos problemas; e você buscando estas causas, pode talvez apresentar algumas idéias de soluções para o problema.

 

ZL: E o que faz o jornalista não ir até a causa dos problemas?

MK: Um conjunto de fatores. Eu vejo que falta incentivo dos veículos de comunicação porque é muito mais interessante, muito mais barato para os jornais, rádios e televisão deixar o repórter para fazer duas ou três matérias todos os dias, de um cunho mais sensacionalista do que deixar ele uma semana pra se aprofundar em um assunto só. Então, um dos motivadores é a falta de interesse dos veículos de comunicação, mas acho que o problema principal está, sobretudo, na falta de interesse e vontade dos próprios profissionais de imprensa. Um grande problema que eu vejo é que o jornalista vira jornalista a partir do momento que chega à redação, bate o ponto e começa a jornada; no final do expediente bate ponto e sai, deixou de ser jornalista. Então o ideal seria a pessoa se sentir, ser e agir como jornalista a todo o momento. Eu sempre costumo levar muito trabalho pra casa para, ficar refletindo sobre a reportagem que eu estou fazendo. Quando você reflete sobre o que você está escrevendo e o assunto tem interesse social, muitas outras idéias surgem e outras possibilidades de novas abordagens. O tempo escasso entre a entrada e saída de um expediente numa redação não te permite refletir sobre o assunto que você está tratando. Nós vivemos dentro de uma redação de jornal, rádio ou televisão um processo industrial. Tem horário pra começar trabalhar, para fazer entrevista, para terminar a matéria porque o jornal tem horário para ser impresso e o telejornal tem horário para entrar no ar. Por isso não há tempo suficiente para a reflexão então seria conveniente o jornalista levar trabalho para a casa mesmo.

 

ZL: Esta dependência que o jornalista tem com o veículo onde atua atrapalha? Você acha que se o jornalista tivesse mais liberdade para fazer matérias, mais tempo para investigação e reflexão poderia dar um desdobramento melhor para o assunto?

MK: O tempo o jornalista encontra. Ele é senhor do tempo dele. Tudo bem que ele tem que cumprir uma carga horária dentro do jornal. Mas, por exemplo, por que um médico se sobressai em relação a outros, um advogado ou um engenheiro? Não à toa, este sujeito procurou se qualificar profissionalmente não ficando restrito à carga horária dele. Ele procurou se aperfeiçoar com curso de pós-graduação e também leu muito. E é da mesma forma com o jornalismo: um dos grandes males de jornalismo, que eu percebo, é a preguiça de leitura e ninguém se faz um bom jornalista sem ler muito. A leitura é fundamental, é a base das bases, a matéria-prima do jornalismo; é lendo que você vai descobrir novos estilos lingüísticos de redação, criar sua bagagem cultural para saber contextualizar e explorar melhor os assuntos que de repente lhe caem na mão.

As pessoas costumam se prender muito a seu horário de trabalho. Mas aproveitem o outro tempo para se qualificar profissionalmente e não à toa as pessoas que agem assim são as que se destacam na profissão que escolheram.

 

ZL: O público hoje quer saber o que acontece no dia-a-dia sem se aprofundar no que lê ou ele quer um material mais aprofundado?

MK: Eu acho que estes dois tipos de cobertura têm que coabitar na área de comunicação. Discute-se muito agora e tem gente que já até estabeleceu prazo para o fim da mídia impressa. Tem gente que já projetou que em 2040 acabam-se os jornais, isto decorrente das novas tecnologias, a Internet sobretudo. Só que as novas tecnologias trouxeram duas questões fundamentais para o jornalismo: democratizou a informação, pois hoje em qualquer computador e em muitos lugares com acesso público as pessoas têm uma infinidade de informações. E também não só a Internet, mas outros meios eletrônicos propiciaram um acesso mais rápido às informações (aconteceu algo agora, dali dois minutos você pode acessar um portal de informação e saber o que aconteceu). Às vezes, é claro, esta pressa provoca informações erradas, mas aí é outra discussão. Então esta rapidez na transmissão de informações provocou outro elemento fundamental a ser discutido, o comodismo nas redações, que é algo mais do comportamento dos profissionais de comunicação. Eles tem tudo à mão, um telefone para fazer entrevista, Internet para fazer um consulta historiográfica do assunto que está tratando, tem e-mails para fazer entrevista. Então o comodismo provocou esta mudança comportamental nos profissionais de imprensa e isto reflete diretamente no resultado do trabalho que vai ser levado ao público.

Independente da discussão sobre o fim dos meios impressos, com ou sem os meios impressos uma coisa é fundamental: a capacidade do profissional de imprensa se aprofundar na questão que ele está tratando. E eu acho, no meu entendimento, que reportagem é a alma do jornalismo independente de que plataforma, seja impresso, eletrônico, audiovisual.

O público busca este diferencial porque o factual, o acidente que aconteceu na esquina onde morreram cinco pessoas, por exemplo, certamente no dia seguinte o jornal A ou B trará esta informação. Então qualquer jornal que o leitor pegue ele vai encontrar aquela informação.

Só que o jornal mais inteligente vai buscar agregar isto de maneira sistemática e não eventualmente, colocando novas informações, fazendo uma análise do porquê que chegou aquele acidente na esquina, quais as conjunturas sociais, econômicas ou de trânsito que levou àquele tipo de situação. Quando o leitor começar a ver que o jornal X sempre traz assuntos mais aprofundados que o jornal Y, por exemplo, ele vai obviamente optar pelo jornal X, que traz um assunto mais analítico e aprofundado. Neste jornalismo pasteurizado que se tem hoje, o hardnews, aquela “coisa” de apenas informar por informar, sem ter a crítica da informação, quem faz algo mais aprofundado tem chance de sobrevivência. Quando eu digo que a reportagem é a alma do jornalismo é porque a grande reportagem e mais aprofundada é a tábua de salvação das mídias impressa. Nós temos no Brasil grandes jornais e algumas revistas semanais já consolidadas, que viraram verdadeiras instituições. Jornais centenários como do Estado de São Paulo, Jornal do Comércio (mais antigo de circulação do Brasil), são instituições nacionais. Eu não acredito que os donos desses jornais vão permitir tão facilmente que estes jornais simplesmente desapareçam e que joguem tantos anos de história. Então eles vão continuar vivos e ter que se readaptar de alguma forma. Eu acho que a sobrevivência destes jornais que não querem morrer é a grande reportagem, o assunto aprofundado que traz o diferencial para o leitor.

 

ZL: Hoje se tem mais espaço para os jornais, sites e rádios comunitárias?

MK: Tem com certeza pelo seguinte fato: nos Estados Unidos, por exemplo, não existe uma rede nacional de televisão que abranja o país inteiro, não tem jornal que tenha uma unidade nacional lá. Aqui no Brasil é diferente, pois nós temos emissoras de televisão com cobertura nacional. A Folha de S. Paulo, por exemplo, que é o maior jornal de circulação no país não circula no país inteiro e sim nos principais eixos econômicos e políticos. Então como as outras regiões do país se informam? Pelos meios regionais de informações.

O Nelson Rodrigues falou certa vez, decorrente da guerra, que interessa muito mais um cachorro morto na porta da redação do que mil soldados mortos lá na guerra. Ele quis dizer com isto que interessa ao nosso leitor muito mais um acontecimento aqui, um buraco na esquina do que um acontecimento mais longe. Não que aquele assunto da guerra não seja importante, porque mexe com a geopolítica mundial e a gente sofre os efeitos dessa mudança, mas para o nosso leitor, telespectador ou rádio-ouvinte imediato, as coisas que lhe são mais diretamente relacionadas interessam mais, e é aí que está o espaço para os veículos alternativos e para a mídia comunitária. Ela cobre este vazio que os grandes jornais e veículos de imprensa não suprem, pois só falam das questões nacionais e maiores. Mas quem vai falar do buraco na rua que interessa àquelas tantas famílias que moram na rua esburacada? Será esta mídia.

Repórteres:  Bianca Silva e Tiago André

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