Um barco aportado no jardim do Bairro Alto, em Curitiba
Morador constrói à mão um veleiro para navegar pelos sete mares
“Há rumores de que um cara está construindo um barco no Bairro Alto”. O assunto já estava em pauta há, pelo menos, duas semanas. Ainda assim, em todo esse tempo, nenhum repórter do Zona Leste havia se deslocado para checar a informação. Dessa maneira, a história do barco acabou por ficar na gaveta durante algum tempo – precisamente, desde o dia 25 de março.
Sexta-feira, 4 de abril de 2008, 19h22. Após constatar que a pauta, uma vez mais, não estava nos planos de cobertura da editoria, decidi conferir a veracidade dos boatos. A minha tarefa: encontrar, em meio à escuridão que já se impunha naquele começo de noite, o tal do morador que estaria construindo uma embarcação.
De imediato, não havia nomes, fontes e, tampouco, endereços precisos que pudessem servir como norteadores para a minha busca. A única informação era a de que o suposto barco estaria ancorado em alguma rua próxima à agência do Banco do Brasil – nas imediações da estação-tubo China.
Os dados faltavam, mas a curiosidade, a essa altura, já era grande. Não havia outra opção, portanto, a não ser me embrenhar pelas estranhas do Bairro Alto para encontrar a história. Acionei, então, uma unidade móvel do ZL e fui em direção à rua José de Oliveira Franco – o endereço da agência bancária.
Encontrando o Indomável
O próximo passo? Os botecos são sempre ótimas fontes de informação. A vida dos bairros é contada, diariamente, nas mesas dos bares. À primeira vista, nenhum barzinho. Na falta de um, resolvi adentrar em uma vídeo-locadora. Encontrei dois garotos.
- “Boa noite. Por acaso, vocês já ouviram falar de um cara que está construindo um barco aqui por perto”?
– “Barco?” – um deles indagou – “Ahhh, o Domador”!
Para a minha sorte, logo na primeira abordagem, já havia obtido a confirmação de que a história era verídica. O garoto, então, me repassou as coordenadas do local onde estaria o barco. Antes que eu partisse, no entanto, ele se corrigiu.
– “Ah, e não é Domador… O nome do barco é Indomável”.
Entrei no carro. Dei meia-volta. Atravessei a principal. Depois de uma quadra, virei à direita. E à direita novamente. Foi quando, em uma ruazinha mal iluminada, eu avistei o Indomável. De primeira impressão, um susto: tratava-se de um barco de ferro (ao contrário do que supunham as minhas expectativas em encontrar uma embarcação de madeira – no melhor estilo ‘a arca de Noé’). Aliás, no trajeto da faculdade até a locadora, não conseguia imaginar nada além de uma arca construída por um seguidor inveterado das tábulas da Sagrada Lei.
Sem parar de olhar para o barco, bati palmas em frente ao portão daquela casa da rua Adílio Ramos. Fui atendida por uma mulher tímida, que vestia um sobretudo preto. Era Lenir Siqueira. Falei que tinha interesse em saber sobre a construção do veleiro. E, em instantes, já estava à porta o idealizador da embarcação, Pedro, um serralheiro de 45 anos, marido de Lenir. Fui convidada, então, a entrar e a ouvir a incrível história de um homem que tem por grande desafio pessoal a construção de um barco, a próprio punho. E ao contrário do que eu pensava, não, ele não é movido por medo de um possível dilúvio!
O início da utopia
Pedro ainda era um garoto quando viu o mar pela primeira vez. Na praia de Itanhaém, litoral paulista, o menino de sete anos estava sentado à beira-mar, maravilhado com a imensidão do oceano, quando avistou o Arquipélago de Alcatrazes. “Um dia eu vou ter um barco pra chegar até aquela ilha, lá longe”. E, em meio ao entusiasmo da criança, surgiu aquele que seria o maior desejo de Pedro Luiz Costa.
Muito tempo depois, às margens de uma represa, também em São Paulo, o mesmo Pedro, agora já mais velho, via que os ocupantes de uma embarcação tinham muito mais sorte na pesca do que ele. Foi quando percebeu que sua pescaria seria mais farta se estivesse, assim como os outros, dentro de um pesqueiro. “Por que eu não construo um barquinho desses”?
Há cerca de um ano e meio, na rua Adílio Ramos, à vista de todos os vizinhos, começou a ser erguida uma embarcação de 29 pés (8,84 metros de comprimento), construída com chapas de aço de três milímetros. Trata-se de Indomável, um veleiro oceânico que tem despertado a curiosidade dos moradores da região.
Com as próprias mãos
O serralheiro Pedro conta que o projeto do seu Indomável nasceu da vontade de possuir um barco próprio, 15 anos atrás – durante a pescaria com os amigos. Sem condições financeiras, só havia uma saída para ver seu sonho concretizado: construir uma embarcação com as próprias mãos. Passou, então, a descobrir a engenharia náutica, através de revistas e livros especializados. Na internet, buscou projetos para veleiros e encontrou orientação específica em grupos de discussão de construtores amadores.
À medida em que foi adquirindo conhecimento, a idéia da construção do veleiro amadureceu. Em uma de suas consultas, Pedro encontrou o desenho de um veleiro projetado por um russo. O modelo desenvolvido estava disponível gratuitamente a quem quisesse colocá-lo em prática. A partir de março de 2006, com base no plano vélico obtido, deu-se início ao desenvolvimento do projeto da sua embarcação ideal.
Foram horas de trabalho a fio, arquitetando o barco. Depois de seis meses, o desenho do Indomável estava pronto, com suas medidas finais ajustadas e definidas: o veleiro projetado terá peso de 4.200 quilos, três metros de ‘boca máxima’ (largura), e será propulsionado a velas e por um motor a diesel de 20 HPs. Após a conclusão dos cálculos, Pedro iniciou a montagem do protótipo. Numa escala de 1/10 metros, a maquete, desenvolvida em lâminas de madeira, incluiu cada detalhe do barco: do casco à cabine interna com a cama de casal.
Perito
Hoje, Pedro se utiliza, com perícia, de termos técnicos e demonstra, em suas conversas sobre navegação, o vasto conhecimento teórico obtido com as pesquisas. E o resultado prático de sua diligência está aportado no gramado em frente à sua casa. O imenso Indomável – nome que faz alusão à persistência de Pedro – cresce a cada fim de semana, sob os olhares atentos do construtor, de sua mulher, Lenir e de toda a vizinhança.
O veleiro está ancorado na calçada da rua, do lado de fora do portão da casa de Pedro. E o medo de ser roubado? Ele responde de letra: “se levarem o Indomável, com certeza não vão conseguir passar despercebidos”. Se, por um lado, o roubo é uma hipótese não cogitada, por outro, o vandalismo é fato presente. A embarcação já foi alvo, por duas ocasiões, de pichações na lataria. A mesma carcaça de aço é alvo, também, da ação da ferrugem e da corrosão. Mas, segundo o serralheiro, esses fatores externos já eram previstos e, por isso, não acrescentam valores extras à execução da empreitada.
Uma economia e tanto
De acordo com as planilhas de custo, o gasto total do projeto é estimado em R$ 30 mil – incluindo decoração de interiores e eletroeletrônicos. Para Pedro, uma economia e tanto. “Construir um barco, geralmente, é muito mais caro do que comprar um barco finalizado”. De fato: a construção de um veleiro Multishine 28 (um dos mais renomados do ramo náutico) custaria entre R$ 220 e 250 mil reais; um modelo novo, idêntico ao barco, é vendido por 200 mil; já uma embarcação com 30 anos de uso não seria vendida por menos de 80 mil. A construção do Indomável, no entanto, deverá custar apenas 12% do valor de mercado da construção de uma embarcação similar. “Isso só prova que é possível montar um barco mesmo sem muito dinheiro”.
“Meu quintal vai ser o mundo”
Pedro espera que o seu veleiro esteja finalizado até o fim de 2009 – já com toda a estrutura de embarcação (casco, velas, mastros, motor e interiores). Após a finalização, o Indomável deverá passar por uma vistoria técnica, realizada pela Marinha do Brasil, que autorizará – ou não – sua circulação marítima (através de um certificado de arqueação). Só então Pedro, acompanhado da esposa, poderá concretizar a utopia que nasceu naquela praia de São Paulo. “Quero velejar atrás da liberdade. O meu barco vai ser pequeno, mas o meu quintal vai ser o mundo”.
Anna Carolina Azevedo




O que vale é realizar o sonho, mesmo que o ocenao esteja, longe mas o mar está a berira da sua casa
Sueli
Bacana essa matéria!
Mostra que o limite do homem é a sua própria mente.
E a pergunta que não se faz calar: embarcará o Sangue Novo no Indomável ano que vem? rs
Valeu, Rafael.
Parabéns!
A matéria é ótima e o Pedro é um exemplo!
Beijo,
Jussara